...pesadas de um dia cinzento, com Lisboa por baixo do miradouro do velho castelo, ela fuma um cigarro, de olhos postos na imensidão do casario. Ao lado, uma boca de fogo, já sem qualquer uso apoia-se na muralha, apontando o céu. E ela ali sozinha com um cigarro fumegando na ponta dos dedos, uma vaga nostálgica pairando no espírito. Ao longe, uma trovoada abafa o rumor da cidade, anunciando uma tempestade. E ela ali, à espera. Há quanto tempo não chove, pensa ela, e logo hoje tinha que ser... Vê o relógio, olha em redor, impaciente. Não tem chapéu de chuva nem vê nenhum lugar onde se abrigar. E não pode sair dali, não lhe convém, está decidida a ficar. Na mão, o blackberry agora inútil não lhe serve de nada. Ficou sem bateria, reparou à pouco.
Marcou encontro com ele ali, onde costumavam ir à tanto tempo atrás. Veio-lhe à memória os dois ali num dia igual áquele. Separaram-se por uma coisa que agora lhe parece de nada, uma zanga diluída no tempo. Mas separaram-se!!!... deixaram de se falar, continuaram as suas vidas de costas voltadas um para o outro, impedidos de se aproximarem pelo orgulho.
Vai olhando para o relógio, ansiosa, perguntando-se se ele terá desistido.
Quando lhe telefonou, há dois dias atrás, movida por um impulso, disse-lhe que o gostava de ver.
Ele está preso no trânsito, preocupado com as horas. Liga-lhe, mas ela não atende. Vai a pensar no telefonema dela, há dois dias. Na altura achou que talvez já não valesse a pena, mas agora tem saudades, quer revê-la. Começa a cair um aguaceiro tremendo, em minutos a água corre pelas ruas.
Ela está à chuva, quer resistir, mas finalmente compreende que não pode continuar ali. De qualquer modo, a hora marcada, há já muito que passou. Desiludida, decide ir-se embora.
Ele chega segundos depois de ela ter desistido de esperar e abandonado o local, a correr. Sai do carro, abre o chapéu de chuva e procura-a por todo o lado mas não a encontra. Volta para o carro, pensando se ela terá aparecido para o encontro. Telefona-lhe, mas ela continua a não atender. Talvez seja melhor assim, pensa ele.
Ela refujia-se numa pastelaria, a querer pensar que ele se atrasou e que lhe telefonará mais tarde. Porém, os dias passam e ele não lhe telefona.
Ele pensou que se ela tinha o telefone desligado é porque não lhe queria falar, provavelmente porque mudara de ideias.
Semanas mais tarde, ela pensa que se ele não lhe ligou é porque não foi ao encontro. E não voltam a falar-se. Anos mais tarde, quem sabe, talvez se vejam por acaso, falem do encontro falhado, percebam o que aconteceu, mas... será demasiado tarde... pois já não confiam um no outro... apesar de ela o continuar a amar!!!
Nenhum comentário:
Postar um comentário