Está
sentado numa das mesas do café, em perfeito silêncio...
Nos últimos 15 minutos só ela
falou. Ele pousa as mãos na mesa... os dedos entrelaçados... ela,
incomodada com o seu silêncio, reage com uma ponta de irritação, como
que a sacudir o embaraço... Não dizes nada?... - pergunta-lhe.
Ele observa as
pessoas sentadas em redor e encolhe os ombros. Só isso? - insiste ela.
Acho que tu já disseste tudo, afirma. Ela abre a boca, procurando algo
mais para dizer, mas não lhe sai nada. Muito bem, conclui, à beira de
uma fúria, - está tudo dito. Faz menção de se levantar, mas
ele impede-a com uma perplexidade: - Adianta dizer alguma coisa? Vais
mudar de opinião? Não me parece - responde-lhe. Então, é isso... pois...
também acho...
Ela comunicou-lhe que o vai deixar.
Ele escutou-a com atenção, mas não fez qualquer comentário... não fez
nenhum esforço para a convencer do contrário. Isso contribui para a
irritar ainda mais. Sente-se desorientada e uma vontade enorme de sair
dali depressa. A ausência de reação, mais do que exasperá-
-la... desanima-a... dececiona-a... é quase uma humilhação. Ele foi sempre assim, pouco dado a exprimir emoções... a exteriorizar o seu amor por ela. E ela confunde o silêncio com indiferença... Mas não é!
-la... desanima-a... dececiona-a... é quase uma humilhação. Ele foi sempre assim, pouco dado a exprimir emoções... a exteriorizar o seu amor por ela. E ela confunde o silêncio com indiferença... Mas não é!
Ela
levanta-se enquanto diz - olha, isto não nos leva a lado nenhum, vou
andando. - Ele pergunta-lhe: o que queres de mim? - Nada, agora já não quero
nada. Até qualquer dia -. Dá meia-volta, afasta-se por entre as mesas,
sai para a rua.
Ele ali fica... sentado... absolutamente
imóvel... com os dedos entrelaçados em cima da mesa, a olhar em frente,
para a porta por onde ela saiu, durante vinte minutos, a pensar se ainda
a ama ou se já não a suporta. Sabe que lhe dá pouca atenção e que ela
reclama demasiada atenção. Enfim, acha que lhe dá atenção, à sua
maneira, mas que nunca é suficiente para ela. Não fala muito, e então?
Nunca falou. Pensa que o problema está nele, pois não é a primeira
mulher que vê sair da sua vida por uma porta qualquer. Mas a verdade é
que não costuma importar-se muito com isso. Vive bem sozinho. Não é
casado, não tem filhos, e agora nem mulher tem.