... a meio da noite. Não
consegue dormir. Levanta-se, vai à cozinha, tira um pacote de leite com morango do
frigorífico, um copo do armário, coloca-o em cima do balcão, enche-o. Leva-o para a sala, acende a luz do candeeiro pequeno da mesa de apoio, senta-se no sofá com as pernas
recolhidas sob si, a bebericar o leite. Está apaixonada, pensa, tem de
admitir que está. Até agora andou a evitar este pensamento, cautelosa,
manteve um certo distanciamento dos sentimentos fatais. Mas está
apaixonada, ou não está? E porque não consegue sentir-se totalmente
feliz?
Passou um ano desde que teve a certeza.
Acreditou nele, nem lhe passou pela cabeça que ele tivesse dúvidas ou,
pior do que isso, que lhe fizesse promessas que não fossem sinceras. E
no entanto ele desiludiu-a dois dias antes de mudarem das suas casas
para um apartamento só. Ele disse-lhe não é nada disto que eu quero e
desligou o telefone, desligou-se dela... desapareceu!
Hoje
ela tem novamente a certeza. Levou um ano a sarar as feridas, disse de
si para si que este não é o outro, são diferentes, o outro enganou-a,
este não, pode confiar nele. Sim, já sabe que não pode voltar a confiar
cegamente, pelo menos por enquanto, talvez nunca. Já sabe que as
pessoas têm lados obscuros de que nunca suspeitamos e que podem mudar de um
dia para o outro em relação a nós e, de repente, não as reconhecemos.
Por isso, desta vez não confiou totalmente, não entregou a alma
cegamente.
Pousa o copo na mesinha de apoio, vai
ao quarto buscar o telemóvel, os pés descalços no soalho provocam uma
reverberação surda naquele enorme casarão silencioso. Regressa ao sofá. Relê a
mensagem. Ele, o outro, voltou do nada, logo agora, e, embora não lhe
tenha respondido à mensagem, guardou-a e relê-a, ansiosa, como se não a
soubesse de cor. Sabe que não lhe vai responder, não quer vê-lo nem
falar com ele porque ainda se sente traída. E no entanto ele consegue
interferir na sua vida, perturbá-la, deixá-la a pensar, tirar-lhe o
sono.
Mas agora que ela tem novamente a certeza
pensa, agarrada a uma frágil determinação, que não vai recuar com este
por causa do outro. Só que o facto do outro lhe ter enviado a mensagem
fá-la duvidar se tem mesmo a certeza deste. Mas pensa que se desistir
agora vai fazer-lhe o mesmo que o outro lhe fez a si e considera isso
detestável, inqualificável.
Atira o telemóvel para
o lado, agastada, solta um aahhhh exasperado que ecoa na sala,
dirige-se para o quarto, deixando o copo de leite intato, a luz da sala
acesa... enfia-se na cama, apaga o candeeiro da mesinha de cabeceira e
fecha os olhos, desejando muito dormir só para não pensar mais nisso.