terça-feira, 22 de maio de 2012

Normalmente...

... ela sempre foi muito senhora de si, muito segura. Bem, pelo menos é a imagem que as pessoas têm de si, aquela que ela própria sempre projetou. Mas por vezes perde a confiança subitamente, e então fica deprimida, assustada. Basta que lhe digam uma palavra errada, uma crítica maldosa, e fica infeliz para o resto do dia. É difícil de explicar esse seu sentimento, ela mesma não consegue arranjar uma explicação racional para o sucedido. Sabe o que o desencadeia, mas não sabe qual a causa de ser tão forte, porque uma simples frase negativa de alguém a seu respeito tem o poder de a desmoralizar. Habitualmente, reage como as pessoas esperam que reaja: Mal!!!... Responde mal e com alguma agressividade. Mas só ela sabe como essa reação dura, que procura anular quem a põe em xeque, é afinal uma fraqueza. As pessoas retraem-se quando lhes fala assim, levanta a voz, disparata, no entanto, depois não é capaz de esquecer, fica a pensar no que aconteceu, no que lhe disseram, no que disse, arrepende-se de ter explodido...
Nessas alturas sente-se muito frágil, só lhe apetece chorar, olha em redor no trabaçho e tem a sensação de que todos os colegas estão com um pensamento crítico sobre ela, não obstante cada um estar a pensar na sua  própria vida, ocupado com o seu próprio trabalho.
Hoje foi um desses dias e, quando sai do emprego, caminha pela rua com as pernas a tremer, apesar do seu ar imponente. Sente-se insegura e ocorre-lhe a ideia absurda de que um destes dias pode quebrar-se algo dentro de si, na sua cabeça, e nunca mais conseguir ter controlo sobre os pensamentos, sobre as suas emoções, tornar-se definitivamente incoerente. Pergunta-se se será isso a loucura, se todas as pessoas sentem o mesmo, se anda o mundo inteiro à beira da loucura mas, tal como ela, esconde esse medo dos outros.
Vai na rua, passa defronte a uma montra, vê-se de relance. Pára, olha-se no vidro fingindo-se interessada nos artigos ali expostos. Fica olhando-se durante breves instantes, a observar-se. A imagem que o vidro reflete não é a da pessoa que está ali. A pessoa que ela vê é bonita, vestida de um modo atraente, sensual, um tanto ousado, de saia curta, desinibida, como que andando pela vida sem uma única preocupação e segura de si própria. Essa, nunca poderá ser ela.
Chega a casa, tranca a porta, faz cucégas na gata, que como sempre veio esperá-la à porta, prepara um chá e vai enroscar-se no sofá, sentindo-se fraca e irritada. Pensa que lhe falta alguém que a abrace nestas alturas, oferecendo-lhe a certeza do refúgio seguro que a liberte de todos os seus medos. No entanto, recebe uma mensagem no seu blackberry... pink, not black... um convite para jantar. Suspira. Ele é a pessoa certa no momento certo. A sua presença, a sua voz, serena, tranquila, a sua presença traz-lhe bem estar. Decide que chega de sentir pena de si própria e, já mais animada, responde-lhe que sim, com uma esperança de que a noite lhe salve o dia. Abre os olhos, olha o telemóvel, afinal a mensagem não passou de um sonho!!! Vai ficar sózinha. Sim, porque afinal, ela nem sequer amigos tem... e ele, já nem pensa nela.

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