...em casa de amigos. Vê-a sozinha lá
fora, no pátio. Ele aproxima-se e pergunta-lhe se se pode sentar ao seu
lado. Ela mostra-lhe um sorriso aberto. Apresentam-se, começam a falar
de assuntos mundanos, descobrem interesses comuns, gostam um do outro.
Mais tarde, o namorado dela aproxima-se e diz - já é tarde, vamos? - Ela
despede-se e vai-se embora. A namorada dele vem sentar-se no lugar onde
ela estava e pergunta-lhe quem era. Ele não dá importância, - alguém que
conheci agora. - Mas fica a pensar nela.
Passa uma
semana. Ela vai à livraria perto de casa e repara nele a
folhear um livro. O coração ganha vida. Aproxima-se. - Encontrou alguma
coisa interessante? - Oh, olá! - Exclama ele, encantado por revê-la. Não,
nada de especial, e você? Acabo de chegar, responde.
Tomam
um café. Falam dos livros que leram, de outras coisas, de tudo... e de
nada! Riem-se. Sentem-se bem juntos... voltam a encontrar-se no dia
seguinte, e nos outros dias todos. Agora já não se podem ignorar.
Encontram-se em ruas secretas nos intervalos dos dias, em cada
oportunidade que tenham.
Estão em casa dela, numa quarta-feira à tarde. Beijam-se, querem-se, desejam-se, fazem amor. O dia
acabou, o quarto caiu na penumbra, estão abraçados, felizes, e decidem
que vão ficar juntos, aconteça o que acontecer, por toda a vida, até à eternidade. Mas dois meses mais
tarde ela diz-lhe - acabou, vou-me embora, não é isto que eu quero -. - O que é
que tu queres? -, pergunta-lhe ele, com a respiração suspensa, sem querer acreditar no que estava ouvindo. - Uma vida
normal, sem segredos - responde-lhe ela. Imóveis, frente a frente na rua, no meio do
passeio, ligados pelas mãos, olhos nos olhos. - Não me amas -, pergunta-lhe
ele. - Eu quero-te, mas é demasiado complicado, quero-te sempre, todos os dias, quero-te ao meu lado nas minhas alegrias e nas minhas tristezas e tu és só
para as coisas boas. As coisas boas não valem muito, as coisas
más são as que contam. Estou triste, se fosse uma situação
diferente... Eu amo-te... e pensei aguentar, mas... Talvez um dia. -, - Não há um dia, só há agora, ficas
ao meu lado nos momentos difíceis e eu faço o mesmo por ti, é isso o
amor - Diz-lhe ele. -Mas eu não posso - diz ela - não consigo... eu quero muito mais que aquilo que me podes dar... não me odeies - pede-lhe. Desolado, ele compreende que chegou a altura de
a deixar ir, larga-lhe as mãos, separam-se, ela recua alguns passos,
gente de passagem atravessa-se entre eles. Adeus, murmura ele sem
palavras. Adeus, responde ela, igualmente sem palavras. Depois volta-se e
parte, misturando-se entre a multidão. Ele acende um cigarro e fica a
vê-la afastar-se. Fica ali até a perder de vista. Atira fora o cigarro
e, quando começa a andar no sentido contrário, sente-se gelado até à
alma...
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