Uma estrada de terra batida sem movimento corre paralela ao campo onde ele trabalha. Tem uma quinta, alguns hectares, algumas máquinas agrícolas, e é isso que faz.
Dantes, ia a Lisboa todos os fins de semana, ao encontro dela. Ficava em sua casa. O tempo era escasso, esgotava-se a correr. Quando dava por si, já estava na hora de regressar à sua quinta. Mas agora já não vai. Num fim de semana pediu-a em casamento, mas ela recusou. Justificou-se dizendo que não queria a vida que ele tinha para lhe oferecer. Separaram-se sem soluções mas com uma imensa mágoa.
Na sexta-feira seguinte, um velho amigo em apuros dormiu em casa dela, no sofá.
Na manhã seguinte ele aparece de surpresa. Não era para ir mas não conseguia esquecê-la. Tocou à campainha. O amigo dela vem abrir a porta em tronco nú, jeans e descalço. Ele sentiu como se o coração lhe tivesse parado naquele preciso instante.Depois, pede-lhe desculpa: - "enganei-me" - , diz, e afasta-se rapidamente. O outro tenta chamá-lo, dizer-lhe que talvez não esteja enganado, mas ele já não ouve nada. Encolhe os ombros e fecha a porta. Ela pergunta lá de dentro quem era, e o amigo responde: - "ninguém, era engano" -.
Durante a semana ela telefona-lhe. Sente que precisa de falar com ele... dizer-lhe que o ama... que terão de arranjar uma solução para poderem ficar juntos. Mas ele não atende. Ela insiste vezes sem conta até receber uma mensagem terminante: - "não tentes contactar-me nunca mais, esquece-me" -.
Passou um ano. Ela andava nas compras, o seu hobby preferido, num supermercado perto de sua casa e encontra o amigo, que nunca mais tinha visto. Na caixa ela abre a carteira para pagar, mas atrapalha-se e deixa-a cair. Abaixam-se os dois para apanharem os papéis que se espalharam pelo chão. Ele segura uma foto que encontrou no meio de toda aquela confusão. - "Quem é este? -, espanta-se ele. Ela pega na velha foto, deixa transparecer um semblante perturbado. - "não interessa - responde, enfiando atabalhoadamente os papéis e a foto na carteira. Apressa-se a pagar, despede-se e vai embora. Ele, como a empregada da caixa não se despachava, deixa tudo e corre atrás dela. Alcança-a já no parque de estacionamento. Segura-a por um braço, ela vira-se com os olhos marejados de lágrimas e ele diz-lhe: - "espera, tenho uma coisa importante para te dizer que somente agora percebi".
Ele conduz o trator, deixando longos sulcos no rasto da máquina. Um jipe aproxima-se. Trava, as rodas escorregam na terra e levantam uma nuvem de poeira que o envolve. O Jipe volta a arrancar e, quando a poeira assenta, lá está ela, sozinha na estrada. Ele desliga o motor, surpreendido, e salta do trator encontrando-se a meio caminho. - "Que fazes aqui? -, pergunta-lhe ele. - "Não digas nada, ouve só o que tenho para te dizer. Esta manhã soube uma coisa..." Conta-lhe o que se passou naquela manhã, explica-lhe o que se passou há um ano. Ele escuta-a, perplexo. - "Não sei se tens alguém, já passou tanto tempo, mas tinha de te contar isto..." -. Ele abana a cabeça, responde-lhe que não tem ninguém. - "Também eu não... nunca mais tive ninguém..." diz ela, limpando as lágrimas com as costas da mão. Ele abraça-a. - "Nem eu..." - diz-lhe ao ouvido. "não fui capaz, só te queria a ti, meu amor".
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