... é 1º de Dezembro. É dia de montar a árvore de Natal, o presépio e ainda enfeitar a casa e não esquecer a coroa de Natal na porta da rua. É também dia de meter na parede o calendário de Natal de chocolates... hum... amanhã como já o meu.
Como vêm, não somente sou saudosista como também sou de tradições.
Atchim! Meu Deus, já começo a espirrar só de imaginar o frio e chuva que por aí vem. Sim, porque eu odeio frio e chuva mas Natal sem estes dois... nem parece Natal.Tenho de tratar de mim, porque ainda tenho o resto dos presentes de Natal para comprar, apesar de já ter quase tudo comprado porque eu gosto de escolher nas calmas. Atchim! Onde terei metido os antipiréticos ou os antigripais? Pelo menos já posso oferecer a mim própria o primeiro presente de Natal deste ano: dose dupla de um antigripine, com essa tal vitamina que evita as constipações. Não me lembro da letra da vitamina: B? C? J? Ai que enjoo o alfabeto das vitaminas! Se a minha criancinha estivesse a ouvir-me dizia logo - Compra mas é uma caixa de Aspirina - Para ela a Aspirina é o remédio santo para tudo.
Tenho os olhos a arder e não páro de espirrar e de assoar-me. Estou rodeada de flocos brancos não de neve, mas sim de Kleenex. Sinto a cabeça como se estivesse cheia de algodão, mas isso também já é normal.
Atchim! Assim não consigo pensar com um mínimo de clareza. E, no entanto, não tenho outro remédio senão preparar a lista dos presentes que faltam. Não é coisa simples, não senhora. As coisas vão-se tornando mais difíceis de ano para ano. Não gosto de me queixar. Aliàs, quase nunca me queixo de nada...é sabido que sou por natureza risonha, a... a... atchim!... mas francamente, não sei não!
Que se pode oferecer hoje às crianças? Evidentemente nada de brinquedos bélicos: todas as associações de pais de família me cairiam em cima. Nem bonecas, com os seus vestidinhos e os seus cosméticos, porque é uma prenda sexista e discriminatória para as crianças. Claro que poderia oferecer as bonecas aos rapazes, mas ainda seria pior porque me chamariam de perversa. Nem daquelas que dão de mamar, fazem chichi, bebem o leite, espirram,... a... a... atchim! Nem os automóveis de brincar nem as bicicletas e motos de verdade me deixam muito sossegada: há tantos acidentes! Além disso, as estradas estragam a natureza e o preço da gasolina provoca guerras. Então, pois, excluídos os veículos! Por um momento pensei em oferecer um conjunto de brincar às lojas, com os seus balcões mínimos cheios de frutas e costeletas de plástico, com as suas caixinhas registadoras a abarrotar de dinheiro que não vale nada. Mas felizmente apercebo-me a tempo do perigo: iria fomentar descaradamente o consumismo, a mentalidade mercantil, a ânsia de lucro. Aqueles que não podem comprar costeletas de carne e osso veriam nas de plástico uma troça indigna.
Está visto que não é fácil acertar. Oferecerei telemóveis de brincar? Significa que mergulho a inocência das criancinhas na cacofonia cansativa da nossa vida adulta. Aviões? Veja-se a secção dos automóveis, agravada pelos sequestros aéreos e os bombardeamentos. Animaizinhos domésticos? Têm os seus direitos sagrados, o primeiro dos quais é não serem obrigados a ladrar ou piar para satisfazer a tirania dos humanos. Quanto ao catálogo dos jogos de consola, mais vale nem sequer folheá-lo: é um reportório impiedoso de brutalidades, assassínios, masmorras, torturas e aniquilamentos. Material de química ou de física? Já vimos onde a ciência moderna levou o mundo. Jogos de magia? Estimulam a quem os recebe a fuga fácil aos problemas reais e consagram a arte dos aldrabões. Aguarelas, lápis de cor? Servem para esborratar de obscenidades e coisas absurdas as ruas ou as carruagens do Metro... se bem que, de um bom graffiti até eu gosto. Nada de produtos para fazer bolas de sabão, que causam intoxicações, além de poluirem o ambiente. Um humanitarista incauto cometeria o erro de oferecer material usado por médicos e enfermeiros, esquecendo-se daquilo a que as crianças costumam brincar quando dizem que brincam aos médicos. Cd's? Com o seu estrondo incomodam os vizinhos ou até favorecem o autismo dos que andam permanentemente ligados a um Mp4 ou Mp5... como eu. Livros? Já viram a cara que uma criancinha de hoje põe quando alguém se atreve a oferecer-lhe um livro?
Bolas! Que raio! Eu quero ser politically correct como qualquer outra pessoa seria... ou não... Sinceramente, não consigo orientar-me. De modo que cheguei à conclusão de que, neste Natal, vou apenas oferecer dinossauros! Pois é. Dinossauros para todos! Agradam, são ecológicos e como se extinguiram há já tanto tempo, não incomodam ninguém!
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