quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Entusiasmada...

... passou a última meia hora a dar uma arrumação nas gavetas da cómoda do quarto. Faz agora três dias que chegou lá a casa com uma mala enorme e dois sacos, nada mais. O resto da sua vida ficou na outra casa, no apartamento onde há já muitos anos morava. Ele convenceu-a de que o melhor seria viverem juntos, apesar de se conhecerem à muito pouco tempo, apenas um mês. Ela seguiu um impulso, deu um salto, agarrou-se ao pescoço dele e sorriu, feliz com o convite, disse que sim. Estava perdidamente apaixonada por ele, não pensou muito nas implicações deste passo. 
Saiu do quarto a tagarelar qualquer coisa, mas ele estva a ver televisão na sala e não prestava atenção ao que ela lhe dizia. Dá uma resposta vaga sem tirar os olhos do plasma. Fica parada uns segundos junto à porta que dá acesso ao quarto, a observá-lo sentado no sofá. E, subitamente, tem a sensação de que tudo ali lhe é estranho! O espaço... decoração... nada têm a ver com ela. Até o homem ali sentado no sofá, nada tem a ver com ela. Parece-lhe completamente desconhecido. Repara que ele está vendo um programa sobre animais selvagens e dá com ela a pensar que não sabia que ele se interessava por esse género de programas, que tivesse sequer interesse por alguns animais que não fossem as suas duas cadelas e o seu gato. Pensa... - "O que é que eu estou fazendo aqui? ... Mal o conheço..." -
Está prestes a ter um ataque de pânico. Corre para a casa de banho e fecha-se lá dentro. Baixa a tampa da sanita - que nunca conseguiu que se mantivesse baixa -, senta-se, apoia os cotovelos nos joelhos e esconde o seu rosto em lágrimas nas mãos. De repente... levanta-se! Desorientada abre a torneira do lavatório, passa água pela cara, pega numa toalha, espreita por cima dela, como se tivesse uma máscara, apenas com os olhos destapados, baixa a toalha, vê-se ao espelho, respira fundo, e diz a si mesma que tem de se controlar, que está agindo como uma tonta.
Regressa à sala, vai sentar-se ao lado dele no sofá. Agora ele está vendo um filme antigo. Afinal não tinha assim tanto interesse em programas de animais selvagens, mas, pensa, quem é que gosta de ver filmes a preto e branco? Que ela saiba, só nos filmes modernos é que as pessoas os vêem. Tal como acontecia com Júlia Roberts ao lado de Richard Gere no filme Pretty woman - "Gostas de filmes antigos?" pergunta-lhe ela. - "Hum?...não... nem por isso... estava a fazer zapping" - responde-lhe ele, mudando uma vez mais de canal. Depois, olha para ela preocupado. - "Estás bem? pareces-me pálida..." - repara ele. - "Sim, sim... estou ótima" - reponde ela , acompanhando com um sorriso forçado. Ele sorri-lhe de volta, mais descansado, perguntando-lhe se quer ver algum programa em especial. Responde-lhe que não, que lhe é indiferente. Entretanto, continua a mudar de canal até que concordam em ver uma série.
Ele passa os braços por cima dos seus ombros e ela encosta-se a ele... aconchega-se. Pensa que tem de dar tempo ao tempo, que em breve vai conhecê-lo melhor e que vai correr tudo bem. Depois, mais calma mas não menos insegura, acaba por adormecer nos seus braços.

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