... um trabalho para fazer, um relatório que precisa
de escrever. Mas acorda muito tarde, quando as costas já lhe doem de
tantas horas deitado. Sai da cama sem vontade para a vida. Ressacado da
noitada, arrasta-se até à casa de banho e deixa-se estar debaixo
do chuveiro numa pasmaceira apática. Veste qualquer coisa, come
qualquer coisa, vai para o computador, liga-o, acende um cigarro, fica
ali a fumar, a pensar em nada.
Depois levanta-se
para ir fazer um café, volta ao computador, repara no telemóvel em cima
da mesa, lembra-se da mulher que conheceu na noite anterior, pega neste para confirmar que não perdeu o número que ela lhe deu, a
correr, já de saída. Telefona-me um dia destes, disse-lhe com um sorriso
encorajador. E ele está a reflectir se hoje não pode ser "um dia
destes."
Naaa, pensa, é cedo demais, pousa o
telemóvel, abana a cabeça para espantar a sonolência, concentra-se no
trabalho. É um relatório importante, quer apresentar um documento
inatacável, um trabalho de excelência, como é seu hábito. Prepara-se para começar, mas
distrai-se logo, acende outro cigarro. Por outro lado, pensa, teria
piada surpreendê-la se lhe falasse já.Não consegue compreender o porquê de tanta hesitação...
Ela está
sentada num banco de jardim. Acordou tarde, saltou da cama, tomou um
banho rápido e saiu logo para não perder o dia. Tomou um café com uma
amiga, puseram a conversa em dia, separaram-se e ela ficou pelo jardim com
um livro no colo, O Beijo de Danielle Steel, com o pensamento a deambular pela noite
anterior, a perguntar-se se ele lhe irá ligar ou se já se esqueceu dela.
De manhã, ainda se pesou antes de entrar na banheira e ficou preocupada
com um quilo a mais. Faz planos para a semana: dieta, cortar o cabelo,
comprar roupa nova. Tem de se manter impecável, para o caso de ele lhe
telefonar um dia destes, como lhe disse.
Nisto o
telemóvel toca, é um número desconhecido, atende e descobre que é ele a perguntar-lhe se quer sair nessa noite. Atrapalha-se, tenta
dizer uma graça e fica com a sensação de que está a ser ridícula, sem graça nenhuma... quer
dizer que sim, mas, vá-se lá saber porquê, acaba por responder que não, com receio que ele pense
que é demasiado fácil. Desligam. Fica com o estômago numa revolta, feliz
por ele ter telefonado, afinal lembrou-se dela... e interessou-se... triste por ter recusado o convite,mas porque foi dizer que não se era a coisa que mais queria?... preocupada
com a possibilidade de ele não voltar a ligar.
Ele
está desiludido, pensou que fosse mais fácil, mas ela disse que não e
agora tem de arranjar outra companhia para a noite. Entretanto, o dia
acabou e o trabalho terá de ficar para amanhã. Percorre a lista de
contactos do telemóvel, começa pelo "A"... qualquer uma delas serve. Desconsolado, encolhe os ombros e acaba por ligar a um
amigo. Veste o casaco, sai para jantar e depois... logo se vê. Quanto a
ela, talvez se lembre de lhe ligar um dia destes... ou talvez não...
Ela deveria saber que não tem de se sentir culpada... afinal, se tivesse respondido que sim, seria somente por mais uma noite...
Ela deveria saber que não tem de se sentir culpada... afinal, se tivesse respondido que sim, seria somente por mais uma noite...
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