segunda-feira, 16 de julho de 2012

tem...

... um trabalho para fazer, um relatório que precisa de escrever. Mas acorda muito tarde, quando as costas já lhe doem de tantas horas deitado. Sai da cama sem vontade para a vida. Ressacado da noitada, arrasta-se até à casa de banho e deixa-se estar debaixo do chuveiro numa pasmaceira apática. Veste qualquer coisa, come qualquer coisa, vai para o computador, liga-o, acende um cigarro, fica ali a fumar, a pensar em nada.
Depois levanta-se para ir fazer um café, volta ao computador, repara no telemóvel em cima da mesa, lembra-se da mulher que conheceu na noite anterior, pega neste para confirmar que não perdeu o número que ela lhe deu, a correr, já de saída. Telefona-me um dia destes, disse-lhe com um sorriso encorajador. E ele está a reflectir se hoje não pode ser "um dia destes."
Naaa, pensa, é cedo demais, pousa o telemóvel, abana a cabeça para espantar a sonolência, concentra-se no trabalho. É um relatório importante, quer apresentar um documento inatacável, um trabalho de excelência, como é seu hábito. Prepara-se para começar, mas distrai-se logo, acende outro cigarro. Por outro lado, pensa, teria piada surpreendê-la se lhe falasse já.Não consegue compreender o porquê de tanta hesitação...
Ela está sentada num banco de jardim. Acordou tarde, saltou da cama, tomou um banho rápido e saiu logo para não perder o dia. Tomou um café com uma amiga, puseram a conversa em dia, separaram-se e ela ficou pelo jardim com um livro no colo, O Beijo de Danielle Steel, com o pensamento a deambular pela noite anterior, a perguntar-se se ele lhe irá ligar ou se já se esqueceu dela. De manhã, ainda se pesou antes de entrar na banheira e ficou preocupada com um quilo a mais. Faz planos para a semana: dieta, cortar o cabelo, comprar roupa nova. Tem de se manter impecável, para o caso de ele lhe telefonar um dia destes, como lhe disse.
Nisto o telemóvel toca, é um número desconhecido, atende e descobre que é ele a perguntar-lhe se quer sair nessa noite. Atrapalha-se, tenta dizer uma graça e fica com a sensação de que está a ser ridícula, sem graça nenhuma... quer dizer que sim, mas, vá-se lá saber porquê, acaba por responder que não, com receio que ele pense que é demasiado fácil. Desligam. Fica com o estômago numa revolta, feliz por ele ter telefonado, afinal lembrou-se dela... e interessou-se... triste por ter recusado o convite,mas porque foi dizer que não se era a coisa que mais queria?... preocupada com a possibilidade de ele não voltar a ligar.
Ele está desiludido, pensou que fosse mais fácil, mas ela disse que não e agora tem de arranjar outra companhia para a noite. Entretanto, o dia acabou e o trabalho terá de ficar para amanhã. Percorre a lista de contactos do telemóvel, começa pelo "A"... qualquer uma delas serve. Desconsolado, encolhe os ombros e acaba por ligar a um amigo. Veste o casaco, sai para jantar e depois... logo se vê. Quanto a ela, talvez se lembre de lhe ligar um dia destes... ou talvez não...
Ela deveria saber que não tem de se sentir culpada... afinal, se tivesse respondido que sim, seria somente por mais uma noite...

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