...pois sabia que se fosse rejeitada mais tarde levaria
meses, talvez até anos, a esquecer. Já passara por isso e a ideia de
repetir era perturbadora. Decidira ser livre, não se
apaixonar. Tivera alguns casos esporádicos, mas não se prendera a
ninguém. Mas agora voltou ao mesmo e está alarmada porque só percebeu o
que lhe aconteceu demasiado tarde. Como sempre acontece nas grandes paixões.
Trabalha num
hotel, conheceu-o quando estava de serviço ao bar. Achou-lhe alguma piada, mas
não deu importância. No entanto, ele apareceu no dia seguinte, e todos
os dias dessa semana, à mesma hora.
Ele viaja
muito em trabalho, vem a Lisboa com uma certa regularidade. Numa destas suas viajens, deu com
ela logo à chegada, no balcão da receção. O seu rosto iluminou-se
quando a viu, disse-lhe que gostava muito de a reencontrar. E para ela
aquele momento, aquela declaração, não foram indiferentes. Sorriu e respondeu educadamente, que era um prazer recebê-lo novamente no hotel,
tratando-o sempre por senhor. Mas na verdade sentiu uma emoção que a surpreendeu...o coração palpitante.
Mais
tarde, ele foi até ao balcão e perguntou-lhe se não iria estar de serviço no
bar. Como ela dissesse que não, pediu-lhe que fosse lá ter com ele
depois de sair de serviço. Ela recusou. Não poderia fazê-lo. Ele coçou a
cabeça, atrapalhado, mas não desistiu, convidou-a para sair. Apanhada
de surpresa, ela disse que não, inventou uma desculpa. Ele disse-lhe não fazer
mal. Tinha a semana toda para a convencer.
Agora,
ela dá consigo a sofrer à espera do dia em que ele regresse ao hotel.
Falam sempre ao telefone, mas receia que um dia ele mude de hotel e a
esqueça. Receia que um dia aquilo não passe de simples recordações. Por isso, decidiu que não podia continuar nessa angústia. Telefonou-lhe, disse-lhe que era altura de se afastarem. Ele
respondeu-lhe que tinha uma semana para reconsiderar, até ao seu
regresso. Ela fraquejou na sua determinação, disse está bem, uma semana,
mas pediu-lhe que não telefonasse.
Os dias são
lentos, a semana demora a passar. Ela está na receção e pergunta-se
porque não lhe liga ele, porque não ignora o seu pedido. Sente uma
tentação de lhe telefonar, mas resiste. Está apaixonada e assustada com a
força desse sentimento, com o risco de ele a deixar, com a
possibilidade de ele não voltar no fim da semana. Mas ele volta. Chega
com um ramo de flores e declara-se à frente dos colegas, de uma multidão de
hóspedes. Não podes desistir de mim porque te amo e quero casar
contigo, disse-lhe. Ela, emocionada, ri-se com lágrimas nos olhos.
Então,
diz ele, vais responder-me ou deixar-me aqui nesta expetativa? Ela emocionada, recompõe-se, responde-lhe sem pensar duas vezes: Sim!
Ele debruça-se sobre o balcão, beija-a, e há uma salva de palmas geral
na receção...Mais uma vez, o amor venceu!
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