quinta-feira, 21 de junho de 2012

É uma...

... daquelas manhãs cheias de pequenas contrariedades que lhe estragam o humor. Toma banho, lava a cabeça, o secador avaria-se. Sai de casa com o cabelo molhado, a capa da bota descola-se, segue coxa. Entra na pastelaria para tomar um café, avança para a única mesa livre, um homem antecipa-se, coloca o casaco nas costas da cadeira, senta-se à frente dela.
Ele repara nela no momento em que se senta. Quer sentar-se também? Não me importo, diz-lhe. Ela força um sorriso antipático, responde que não e agradece a gentileza fingida, pensa ela. Uma mesa mesmo ao lado daquela fica vaga logo a seguir e ela senta-se. Tem um manuscrito na mão, que se põe a ler sem vontade nenhuma depois de pedir o café. É bom? pergunta ele, interrompendo-lhe a leitura. Ela levanta os olhos, perplexa, achando-o metediço, mas fica tão desconcertada que lhe responde: nem por isso. Trabalha numa editora? insiste ele. Hum hum... responde, baixando logo os olhos, esperançada que a deixe em paz. Mas ele fica a abanar a cabeça sozinho e comenta: imagino que deve ser aborrecido... Ela suspira, já sem disfarçar, tira os óculos de ler. O que é que é aborrecido? Ler maus textos por obrigação profissional?, afirma. Ela encolhe os ombros. Não me importo, diz.
Acaba de tomar o café rapidamente e vai-se embora só para não o aturar. Gostei de falar consigo, diz ele ainda, obrigando-a a dizer qualquer coisa entredentes antes de sair. Vai a guiar no trânsito preguiçoso e pergunta-se como é que aquele chato percebeu que trabalhava numa editora. Depois fica a pensar que a sua cara não lhe é estranha. Finalmente, lembra-se! Lívida, morde o nó do dedo, diz em voz alta sou tão estúpida, solta um grito exasperado.
À tarde, já esquecida do incidente, sai do gabinete apressada para uma reunião, atrapalhada com um monte de papéis, esbarra com duas pessoas no corredor, deixa escapar os papéis para o chão. Levanta os olhos e lá está ele outra vez, acompanhado pelo director da editora, dado que é o escritor mais importante da casa. O director contempla-a com uma desilusão paternalista no rosto.
Já ele abaixa-se para a ajudar a apanhar os papéis. Dia complicado? Pergunta em voz baixa, piscando-lhe o olho. Ela, muito corada e mortificada, faz um sorriso constrangido. Deixe estar, não se preocupe, vai dizendo. Agarra nos papéis de qualquer maneira e esgueira-se pelo corredor cheia de vergonha.
Na manhã seguinte procura-o na mesma pastelaria, desejosa de o encontrar, de lhe pedir desculpa, enfim... de remediar o dia anterior, mas ele não está, nem nunca voltará. Desconsolada, pensa que por causa de uma pequena irritação, perdeu a oportunidade de conhecer um homem que admira e que lhe ofereceu toda a sua simpatia na manhã anterior... maquela que seria a manhã errada...

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