... daquelas manhãs cheias de pequenas
contrariedades que lhe estragam o humor. Toma banho, lava a cabeça, o
secador avaria-se. Sai de casa com o cabelo molhado, a capa da bota
descola-se, segue coxa. Entra na pastelaria para tomar um café, avança
para a única mesa livre, um homem antecipa-se, coloca o casaco nas
costas da cadeira, senta-se à frente dela.
Ele
repara nela no momento em que se senta. Quer sentar-se também? Não me
importo, diz-lhe. Ela força um sorriso antipático, responde que não e
agradece a gentileza fingida, pensa ela. Uma mesa mesmo ao lado daquela fica vaga logo a seguir e ela senta-se.
Tem um manuscrito na mão, que se põe a ler sem vontade nenhuma depois
de pedir o café. É bom? pergunta ele, interrompendo-lhe a leitura. Ela
levanta os olhos, perplexa, achando-o metediço, mas fica tão
desconcertada que lhe responde: nem por isso. Trabalha numa editora?
insiste ele. Hum hum... responde, baixando logo os olhos, esperançada
que a deixe em paz. Mas ele fica a abanar a cabeça sozinho e comenta:
imagino que deve ser aborrecido... Ela suspira, já sem disfarçar, tira
os óculos de ler. O que é que é aborrecido? Ler maus textos por
obrigação profissional?, afirma. Ela encolhe os ombros. Não me importo,
diz.
Acaba de tomar o café rapidamente e vai-se
embora só para não o aturar. Gostei de falar consigo, diz ele ainda,
obrigando-a a dizer qualquer coisa entredentes antes de sair. Vai a
guiar no trânsito preguiçoso e pergunta-se como é que aquele chato
percebeu que trabalhava numa editora. Depois fica a pensar que a sua
cara não lhe é estranha. Finalmente, lembra-se! Lívida, morde o nó do
dedo, diz em voz alta sou tão estúpida, solta um grito exasperado.
À
tarde, já esquecida do incidente, sai do gabinete apressada para uma
reunião, atrapalhada com um monte de papéis, esbarra com duas pessoas no
corredor, deixa escapar os papéis para o chão. Levanta os olhos e lá
está ele outra vez, acompanhado pelo director da editora, dado que é o
escritor mais importante da casa. O director contempla-a com uma
desilusão paternalista no rosto.
Já ele abaixa-se
para a ajudar a apanhar os papéis. Dia complicado? Pergunta em voz
baixa, piscando-lhe o olho. Ela, muito corada e mortificada, faz um sorriso
constrangido. Deixe estar, não se preocupe, vai dizendo. Agarra nos
papéis de qualquer maneira e esgueira-se pelo corredor cheia de vergonha.
Na
manhã seguinte procura-o na mesma pastelaria, desejosa de o encontrar, de lhe
pedir desculpa, enfim... de remediar o dia anterior, mas ele não está,
nem nunca voltará. Desconsolada, pensa que por causa de uma pequena
irritação, perdeu a oportunidade de conhecer um homem que admira e que
lhe ofereceu toda a sua simpatia na manhã anterior... maquela que seria a manhã errada...
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