sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Ela...

... magra, corta o ar quente ao passar por entre as mesas da pequena sala cheia de gente. Senta-se num banco de madeira, a uma mesa retangular também esta de madeira. Ali, é difícil arranjar um lugar livre. Mas ela não tem pressa, esperou junto ao balcão que vagasse uma mesa. Senta-se e um empregado vem saber o que deseja. Pede qualquer coisa para comer e o seu habitual café, o mesmo que pediu com ele, na primeira vez, há já quase oito anos. Mas não tem fome, entretém-se a desfazer bocados do folhado de maçã enquanto olha hipnotizada para a porta, esperando que ele entre no café.
Ele enviou-lhe um bilhete num envelope para casa. Ela nem imagina como ele conseguiu a sua morada, pois nunca ninguém a teve. O bilhete dizia, fiquei a pensar em ti até agora. Vem ter comigo a este café, e mais em baixo o nome e a morada. Ela interpreta aquelas palavras não tanto como uma mensagem amorosa mas mais como uma ordem do destino... uma convocação... e pergunta-se quem é que ele pensa que é?... Só se viram uma vez, no teatro, na estreia de uma peça onde ele entrava. Houve uma receção. Ela estava com uma amiga... conheceu-o... falaram bastante... gostou dele. Mas agora acha-o convencido, arrogante. Porém, pensa que ele deve ter tido algum trabalho a descobrir a sua morada e, por outro lado, fica encantada por lhe ter enviado uma carta em vez de a procurar no Facebook, que lhe teria sido muito mais fácil.
Quando ele entra no café, acena-lhe da mesa, sente-se aliviada, chegou atrasado mas chegou. Ele revela-se atencioso, divertido, e ela já não o acha nada arrogante. Três meses depois ela pensa que deve estar doida por se mudar para casa dele ao fim de tão pouco tempo, mas nunca pensou em desistir.
E ali está ela, novamente sozinha no café, tentando recuperar todos os pedacinhos que sobram do passado, olhando para a porta, hipnotizada, desfazendo o queque com os dedos...
Foi há um mês, no trabalho, vieram ter com ela, contaram-lhe a notícia, que até estava a dar na rádio. Depois veio também nos jornais...mas ainda hoje lhe parece irreal, porque as más notícias só chegam aos outros. Ele estava na praia, foi socorrer uma mulher aflita, salvou-a, mas... afogou-se.
Olha em redor, abarcando o ambiente familiar que se respira no café. As pessoas conversam em voz baixa, a maioria são casais jovens que se inclinam ligeiramente sobre as mesas para ficarem mais perto umas das outras, para se ouvirem quase num murmúrio íntimo, tal como eles também faziam...
Ela recorda que também esteve assim com ele, há oito anos, e hoje não desvia os olhos da porta, angustiada, esperando que ele entre a qualquer momento, embora saiba que isso não vai acontecer nunca mais..

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