... magra,
corta o ar quente ao passar por entre as mesas da pequena sala
cheia de gente. Senta-se num banco de madeira, a
uma mesa retangular também esta de madeira. Ali, é difícil arranjar um lugar livre. Mas ela não tem pressa, esperou junto
ao balcão que vagasse uma mesa. Senta-se e um empregado vem saber
o que deseja. Pede qualquer coisa para comer e o seu habitual café, o mesmo que pediu com
ele, na primeira vez, há já quase oito anos. Mas não tem fome, entretém-se
a desfazer bocados do folhado de maçã enquanto olha hipnotizada para a porta, esperando que ele
entre no café.
Ele enviou-lhe um bilhete num
envelope para casa. Ela nem imagina como ele conseguiu a sua morada, pois nunca ninguém a teve. O
bilhete dizia, fiquei a pensar em ti até agora. Vem ter comigo a este café,
e mais em baixo o nome e a morada. Ela interpreta aquelas palavras não tanto como
uma mensagem amorosa mas mais como uma ordem do destino... uma convocação... e
pergunta-se quem é que ele pensa que é?... Só se viram uma vez, no teatro,
na estreia de uma peça onde ele entrava. Houve uma receção. Ela estava
com uma amiga... conheceu-o... falaram bastante... gostou dele. Mas agora
acha-o convencido, arrogante. Porém, pensa que ele deve ter tido
algum trabalho a descobrir a sua morada e, por outro lado, fica
encantada por lhe ter enviado uma carta em vez de a procurar no
Facebook, que lhe teria sido muito mais fácil.
Quando
ele entra no café, acena-lhe da mesa, sente-se aliviada, chegou atrasado
mas chegou. Ele revela-se atencioso, divertido, e ela já não
o acha nada arrogante. Três meses depois ela pensa que deve estar doida
por se mudar para casa dele ao fim de tão pouco tempo, mas nunca pensou em desistir.
E ali está ela, novamente sozinha no
café, tentando recuperar todos os pedacinhos que sobram do passado, olhando para a
porta, hipnotizada, desfazendo o queque com os dedos...
Foi
há um mês, no trabalho, vieram ter com ela, contaram-lhe a notícia,
que até estava a dar na rádio. Depois veio também nos jornais...mas ainda hoje lhe parece
irreal, porque as más notícias só chegam aos outros. Ele estava na
praia, foi socorrer uma mulher aflita, salvou-a, mas... afogou-se.
Olha
em redor, abarcando o ambiente familiar que se respira no café. As
pessoas conversam em voz baixa, a maioria são casais jovens que se
inclinam ligeiramente sobre as mesas para ficarem mais perto umas das
outras, para se ouvirem quase num murmúrio íntimo, tal como eles também faziam...
Ela recorda que também esteve assim com ele, há oito anos, e hoje não desvia os olhos da porta, angustiada, esperando que ele entre a qualquer momento, embora saiba que isso não vai acontecer nunca mais..
Ela recorda que também esteve assim com ele, há oito anos, e hoje não desvia os olhos da porta, angustiada, esperando que ele entre a qualquer momento, embora saiba que isso não vai acontecer nunca mais..
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