... deixamos algo que amamos... algo que já nos fez feliz... algo que pensámos em nunca largar... mas que largamos.
Ela está sentada na cama a meio da noite, com o portátil no colo como de costume. Não
consegue dormir. Levanta-se, vai à cozinha, tira um pacote de bombons do armário apesar de não ser domingo, coloca-o em cima da mesa e abre-o.
Vai para a sala, acende a luz do candeeiro pequeno, senta-se no sofá com as pernas
recolhidas sob si, tapa-se com a manta que está nas suas costas e pega num bombom. Está apaixonada! Tem de
admitir que está! Até agora andou a evitar este pensamento. Cautelosa,
manteve um certo distanciamento dos sentimentos fatais. Mas está
apaixonada, ou não está? Claro que está... mas porque não consegue sentir-se totalmente
feliz?
Foram quase três anos.
Acreditou nele. Nem lhe passou pela cabeça que ele tivesse dúvidas ou,
pior do que isso, que lhe fizesse promessas que não fossem sinceras. Afinal, várias vezes por dia ele lhe dizia que a amava até ao infinito... que não conseguiria nunca viver sem ela... E
no entanto ele desiludiu-a na véspera daquela festa... ele até a ajudou a escolher a roupa que deveria levar... poucos dias antes de se unirem... nem um telefonema... nada... e ela continuou durante todo o fim de semana à sua espera... mas nada...
Três dias depois ela ligou-lhe. Ele disse-lhe não é nada disso... continuo a amar-te... quero-te minha para sempre... e
desligou o telefone... desligou-se dela... desapareceu.
Hoje
ela tem novamente a certeza. Levou algum tempo a sarar as feridas, disse de
si para si que este não é o outro. São diferentes. O outro enganou-me...
este não, posso confiar nele. Sim, já sabe que não pode voltar a confiar
cegamente, pelo menos por enquanto ou talvez até nunca. Já sabe que as
pessoas têm lados obscuros de que nunca suspeitaremos e que podem mudar de um
dia para o outro em relação a nós e, de repente, não as reconhecemos.
Por isso, desta vez não confiou totalmente, não entregou a alma
cegamente... não se apaixonou perdidamente...
Pousou o bombom na mesinha de apoio, vai
ao quarto buscar o seu telemóvel de cor rosa que está na sua cama... rosa de paixão... rosa de adolescência... rosa de quem acredita no amor, os pés descalços no soalho provocam uma vibração surda no apartamento silencioso. Regressa ao sofá. Relê a
mensagem. Ele, o outro, voltou do nada, como quem pressente que está prestes a perder algo, logo agora, e, embora não lhe
tenha respondido à mensagem, guardou-a e relê-a, ansiosa, uma vez mais, como se não a
soubesse de cor. Sabe que não lhe vai responder, não quer vê-lo nem
falar com ele porque ainda se sente traída... sabe que não o deverá fazer, apesar de tudo. E no entanto ele consegue
interferir na sua vida, perturbá-la, deixá-la a pensar, tirar-lhe o
sono... desejá-lo...
Mas agora que ela tem novamente a certeza
pensa, agarrada a uma frágil determinação, que não vai recuar com este
por causa do outro. Só que o facto do outro lhe ter enviado a mensagem
fá-la duvidar se tem mesmo a certeza deste. Afinal, a chama voltou a reacender... Mas pensa que se desistir
agora vai fazer-lhe o mesmo que o outro lhe fez a si e considera isso
detestável, inqualificável... não seria capaz de o ver sofrer tanto, como ela um dia sofreu... e se hoje era feliz a ele o devia... foi ele que esteve a seu lado quando ela precisou de deixar de olhar para aquele telemóvel... atira-o para
o lado, agastada, solta um grito exasperado que ecoa na sala. Dirige-se para o quarto, deixando o bombom intacto. Apaga a luz da sala, enfia-se na cama com uma lágrima escorrendo por cada um dos seus olhos. Apaga o candeeiro da mesa de cabeceira e
fecha os olhos, desejando muito dormir só para não pensar mais nele... pelo menos, não daquela forma.
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